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Publicado em: 18 de setembro de 2021

Relato de viagem: A história do parasail

Como uma aventura-surpresa virou a melhor história da vida de dois juízes da Suprema Corte americana... e da minha.

Imagem: Galina Tolochko/iStock

No verão de 2001, fui com minha mulher a Nice, na França, para receber a juíza Ruth Bader Ginsburg. A faculdade de Direito que eu dirigia tinha um programa de verão na cidade, e a juíza Ginsburg concordou em dar algumas aulas. Eu não a conhecia, e minha mulher, Leslie, e eu estávamos bem nervosos, mas a juíza impecável e Marty, seu espirituoso marido, foram afetuosos e de fácil convivência.

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Certo dia, estávamos no saguão do hotel quando a juíza Ginsburg, ao ver pessoas voando de parasail sobre o mar, disse: “Parece divertido. Eu gostaria de tentar.”

Leslie e eu rimos de nervoso. Mas Marty conhecia bem a mulher e levava suas ideias a sério. “Você é maluca”, disse ele. Embora eu não tivesse nenhum desejo real de experimentar o parasail, me senti na obrigação de cuidar da juíza Ginsburg. Assim, quando ela disse que pretendia experimentar, me ofereci para ir junto.

O grande voo de parasail

Na manhã seguinte, todos marchamos até a praia. Com um pouco de humor ácido, Marty disse à mulher: “Vou falar de você a nossos netos.” Leslie, pensando no futuro do país, me disse: “Se só um de vocês puder se salvar, é melhor que não seja você!”

Na praia, nos prenderam a um aparato para duas pessoas, conectado a um barco, e lá fomos nós. Acho que ambos sofremos um abalo de medo ao decolar, mas logo nos sentimos à vontade. A vista era espetacular, e o silêncio, muito pacífico. Quando começamos a descer na direção da água, a juíza Ginsburg pareceu preocupada, mas assim que lhe afirmei que só desceríamos até tocar o quente Mediterrâneo com os pés, ela relaxou. Minutos depois, fomos saudados em terra por nossos cônjuges aliviados.

Nasce uma lenda

No fim de semana, depois de vários jantares e concertos, sentimos que Ruth e Marty tinham se tornado nossos amigos. Com o passar dos anos, encontrei algumas vezes a juíza Ginsburg, e raramente a história do parasail deixava de ser mencionada.

Quando me tornei diretor de outra faculdade de Direito, levava às vezes um grupo de ex-alunos para o juramento na Suprema Corte. A juíza Ginsburg ia à recepção numa das lindas salas públicas do tribunal e contava nossa história. Era sempre divertido ver os olhos arregalados dos ex-alunos ao ouvi-la.

Em certo momento, uns oito anos atrás, talvez, os biógrafos oficiais da juíza Ginsburg entraram em contato comigo; tinham ouvido falar de nossa aventura no parasail e queriam me entrevistar. Depois do contato, eu os ouvi numa entrevista com ela para os meios de comunicação, e um dos redatores contou a história, usando algumas de minhas palavras. Poucos anos depois, uma documentarista também entrou em contato comigo pedindo detalhes. Mas, como não havia fotos nem vídeos de nossa aventura, ela não pôde usá-la no bem-sucedido A juíza.

Velha história, nova versão

Em 2015, alguém me mandou um clipe dos juízes Ginsburg e Antonin Scalia numa entrevista ao vivo sobre sua estranha amizade. Com a mesma veemência com que discordavam sobre a Constituição e outras questões jurídicas, os dois tinham ficado muito próximos. Quando trabalharam juntos no Tribunal de Recursos do Circuito do Distrito de Colúmbia, o que os uniu foi o amor em comum pela ópera e pelas viagens, e regularmente as duas famílias passavam o Ano-Novo juntas.

Nessa época, eu também ficara amigo do juiz Scalia; ele também tinha ido a Nice anos antes para dar aulas em nosso programa. Eu me lembro de que contei nossa aventura no parasail e que ele riu, dizendo que não faria algo tão maluco de jeito nenhum. Mas vi que ele se orgulhava muito da coragem da amiga.

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Agora, assistindo à entrevista anos depois, ri quando a história do parasail voltou a ser citada. Nino, como chamavam o juiz Scalia, falava que a juíza Ginsburg era muito aventureira. Com muita surpresa minha, ele contou a história do parasail como se estivesse lá. “Ruth, vamos ser francos, voou atrás de uma lancha”, disse ele no palco, com a juíza Ginsburg à sua direita. “Quer dizer, ela é tão leve que deu para pensar que nunca mais desceria. Eu jamais faria aquilo”, continuou.

Eu me lembro de pensar: você não estava lá, quem estava era eu! Claramente ele não estava mentindo nem se gabando. Afinal de contas, a história era sobre ela.

O poder da história do parasail

Não muito depois, encontrei a juíza Ginsburg em Chicago e lhe perguntei se ela percebera o erro de Scalia. Com certa timidez, ela admitiu que sim e riu. Parece que para ela não houve problema nenhum com aquela fabulação entusiasmada. É justo quando amigos exageram os traços mais atraentes uns dos outros, ao que parece, e o impulso da juíza Ginsburg de voar acima d’água atraiu tanto a atenção do colega Nino que foi como se ele estivesse lá.

Alguns meses depois da entrevista, fui jantar com o juiz Scalia e sua mulher, Maureen. Contei-lhe que assistira ao programa e achara ótimo. Ele disse que tinha gostado. Então, tomei um gole de vinho e falei:

– Sabe aquela história que você contou sobre Ruth e o parasail?

– Sei – disse ele com um sorriso.

– Bem, você se enganou. Você não estava lá quando aconteceu – disse eu e expliquei a cronologia.

Ele ficou muito chocado e se virou para Maureen. “Estivemos no sul da França com os Ginsburgs?”, perguntou à mulher. Ela pensou um instante e disse que não, nunca tinham ido lá juntos.

Com elegância e bom humor, o juiz Scalia aceitou que se enganara na lembrança e, sem querer, se enfiara na história. Brincamos sobre o declínio das lembranças com a idade. Mas nunca achei que a idade sozinha explicaria aquilo. Acho que foi o amor e o respeito por Ruth Bader Ginsburg que levou Nino Scalia à praia de Nice naquele dia.

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