Não sou muito de biografia, me dá uma certa moleza acompanhar o relato de uma vida ainda que esta seja mirabolante. Aliás, quanto mais mirabolante é a vida descrita em uma biografia, mais preguiça me dá, pois gosto mesmo é de ficção, seja conto ou romance.

Contudo, outro dia, na casa de uma amiga, me peguei na leitura deste livro do Lázaro Ramos. Não tem nada de mirabolante ali. E sim o registro sincero de uma pessoa que encontrou seu lugar no mundo: o lugar do sonho, como ele mesmo diz. Pois nosso lugar é aquele onde sonhamos estar, repete o autor.

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Lázaro recupera momentos difíceis do passado na tentativa de construção da identidade a partir do texto. Consegue a empatia quando toma o leitor pela mão e o remete, por exemplo, aos bailes da adolescência: “Era a época dos bailes de quinze anos e das primeiras festinhas sem adulto por perto, e eu não podia me sentir mais rejeitado. As meninas escolhiam seus pares para dançar, seus paqueras do momento. Eu não estava entre as opões. Ficava num canto do salão, sem ter nem com quem conversar.”

A leitura de uma história em que se tenta construir, a partir do texto, uma identidade, relatando as agruras, as angústias, as alegrias e todo um percurso de quedas e chegadas, me levou a uma outra história de vida, em que, igualmente, se tenta recompor os cacos – o espelho quebrado de que fala Lázaro em determinado momento – a fim de que algo forte se organize.

Estou às voltas não com a minha biografia, mas a vida de uma personagem real. Ela, uma nordestina conhecida da família, partilhou comigo episódios tão brutais (e surreais) da primeira década de sua existência no Ceará que foi impossível da minha parte (o jornalismo nas veias ainda pulsando) não querer transformar o relato em livro.

Construção de identidade

O que está em construção é esta identidade que eu chamei de Benedita para poupar o nome da pessoa real. Refaço os passos em falso e tento responder à questão básica lançada por Lázaro Ramos em sua biografia: qual é o lugar dos sonhos para ela?

O título provisório é A casa de palha, pois o lugar da partida (do pesadelo?) é também personagem, assim como a paisagem agreste. Não se trata de uma biografia pura, porque estou inventando muita coisa para dar cor à história que registrei em gravadores e bloquinhos. É uma ficção a partir da realidade.

Acredito, portanto, que, ao deparar com o texto, algumas das personagens reais irão se sentir refletidas nesse espelho quebrado, cujos cacos (fatos) eu montei. Um exercício e tanto. Que desafio é dar ordem ao caos e construir um mosaico de perdas e sonhos – a literatura, seja de que forma se apresente, biográfica ou ficcionalmente, é mesmo um privilégio da palavra.

Lázaro Ramos sabe das coisas.

E aguardem A casa de palha.

Cláudia Nina

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