SÃO PAULO, SP – Neste mês em que se comemora a Consciência Negra, homens e mulheres negros de variadas áreas do conhecimento e das artes são convidados para palestras, debates e rodas de conversa sobre ser negro.

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O que parece ser o caminho para o debate de raça no país pode, segundo aqueles ouvidos pela reportagem, reproduzir racismo estrutural, delegando às pessoas negras o dever de falar apenas sobre negritude.

Rosane Borges, 45, pós-doutora em ciências da comunicação e professora colaboradora do grupo de pesquisa Estética e Vanguarda da ECA-USP, relata que sempre é convidada para falar de questões raciais e sobre ser mulher negra. Nunca sobre comunicação e mídia, sua especialidade.

“Não somos só isso. Eu sou comunicóloga. Tiram as pessoas negras do pensar da vida pública, é uma das faces mais perversas do racismo”, diz.

Estigma persiste

A cineasta Sabrina Fidalgo, 40, que já recebeu 13 prêmios pelo seu filme “Rainha” (2016), conta que é procurada cada vez menos para falar sobre “cinema negro” porque é crítica ao uso do termo.

“Apesar de achar que seja importante politicamente [usar o termo], não acho culturalmente interessante. Primeiro, porque não é um movimento ou uma corrente artística, não foi pensado por cineastas, não há um tratado estético, é uma nomenclatura criada para colocar em uma gaveta pessoas negras que fazem cinema no Brasil”, afirma.

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Fidalgo conta que em 2017, após uma pesquisa da Ancine (Agência Nacional do Cinema) apontar que nenhuma mulher negra produzira nem dirigira filmes nacionais em 2016, ela recebeu mais de 50 convites para dirigir. A pesquisa levara ao lançamento de uma série de editais para diretores negros, e as produtoras queriam acesso à verba.

“Os convites vinham na forma de ‘precisamos de uma diretora negra’. Eles queriam uma diretora negra para entrar no edital e ganhar dinheiro com ele. Não queriam o trabalho de Sabrina Fidalgo. Foi o que mais me irritou. Eu sou uma artista, não uso minha negritude como profissão. Eu não sou seu negro”, diz.

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Ela aponta que “a dita arte negra é bem mais que representações unilaterais do ser negro, pois ser negro não tem nada de limitado nas suas visões de mundo”.

Assunto deve ser evitado

A situação, contudo, parece mais complexa. Quando negros são convidados para falar sobre temas que não tratam da negritude, os recortes de raça passam a ser indesejados.

O jornalista e fotógrafo Ismael dos Anjos, 32, pesquisador de masculinidades e um dos realizadores do documentário “O Silêncio dos Homens”, conta que, ao ser convidado para falar sobre temáticas ligadas ao ser homem, também aborda a perspectiva do homem negro no Brasil.

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Mas recebe pedidos para que não o faça. “Já me pediram para tirar a parte de masculinidades negras por risco de politizar demais, porque a maioria das pessoas da empresa não era negra. É uma violência. Essas pessoas querem negros nas empresas, mas não querem as implicações de tê-los na equipe”, reflete.

FolhaPress