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Publicado em: 8 de fevereiro de 2020

Grupos de leitura promovem o bem-estar e a sociabilidade

Ler pode ser uma atividade solitária, mas reunir-se para discutir um livro é um fenômeno em expansão.

Imagem: Farknot_Architectqi/iStock

“É muito inspirador”, diz Laura, uma mulher na faixa dos 30 anos, com longos cabelos louros, óculos escuros de grife e uma saia multicolorida ondulante. “As ruas de Nápoles, a paisagem arenosa, os cheiros – na verdade, acho que é realmente um romance sobre cheiros.”

Helene, uma americana com cerca de 50 anos, serve-se de uma taça de vinho e torce o nariz. “É mais como um romance sobre secreções, se você me perguntar. Suor, sangue e outros fluidos que não quero mencionar.”

“Eu mal podia esperar para terminar”, geme Lesley, sentada ao lado dela. “A heroína era uma personagem muito passiva e escorregadia. Ela me irritou. Quando meu Kindle avisou ‘dois minutos para o final do capítulo’, pensei: Graças a Deus!”

Numa noite morna e agradável, cinco mulheres, todas integrantes de um grupo de leitura, estão sentadas num terraço com vista para o Regent’s Canal, que atravessa o bairro de Islington, no norte de Londres.

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Corredores e ciclistas lotam a pista que margeia o canal enquanto as barcaças passam deslizando pelos jardins frondosos e pelos novos prédios residenciais envidraçados.

Elas estão discutindo o romance de Elena Ferrante, Um amor incômodo. Como uma história policial, ela começa com um cadáver. No entanto, o livro é mais um suspense psicológico do que um “quem matou?”, cheio de
relacionamentos infelizes e segredos de família sombrios.

A narrativa é conduzida por Delia, que voltou à sua cidade natal, Nápoles, para descobrir por que sua mãe, Amalia, afogou-se no mar. Os ônibus em que ela embarca cheiram a suor, os apartamentos “fedem a mofo e teias de aranha” e até as flores da cidade têm cheiro de coisas “já apodrecidas”.

Laura e Helene estão certas: é realmente um romance para o nariz, e poucos cheiros são apetitosos. No entanto, as cinco mulheres aqui nesta noite desfrutaram de um jantar napolitano que incluiu risoto de frutos do mar, nhoque alla sorrentina e prosecco – tudo em homenagem à cidade natal da escritora. O banquete italiano é incomum porque o grupo em geral
se reúne num pub.

“Não queremos entrar numa competição culinária”, diz Helene. “Estamos aqui para falar de livros, não de receitas.”

Os benefícios dos grupos de leitura

Qualquer que seja o formato, os grupos de leitura atraem pessoas e promovem conversas interessantes. E não é só isso: também podem melhorar o bem-estar.

Pertencer a um clube de leitura pode até prolongar sua vida. Uma pesquisa publicada pela BMJ Open, revista médica do Reino Unido, revelou que,
assim como os clubes esportivos ou as associações religiosas, os grupos de
leitura onde você encontra pessoas e conversa com frequência reduzem o
risco de morrer nos primeiros seis anos após a aposentadoria.

A biblioterapeuta Susan Elderkin, coautora de Farmácia literária, entende o poder de um bom livro.

“As pessoas podem se pegar compartilhando inesperadamente sentimentos e pensamentos que nunca expressaram antes”, diz Susan. “Um bom romance vai atingir o tipo de emoções profundas e percepções sutis sobre o ser humano que não surge nas conversas diárias. Você pode expor muito ou pouco sobre si mesmo, conforme o seu desejo. Pode usar esse momento como uma oportunidade para falar de questões e experiências pessoais.”

Entretanto, numa era digital e obcecada por aplicativos, passar uma noite inteira discutindo em detalhe um único livro pode parecer estranho.
E, na Alemanha, por exemplo, sede da maior feira de livros do mundo, o
número de pessoas que compraram livros caiu quase um quinto entre 2013 e 2017. Os editores culpam os videogames e os serviços de streaming como a Netflix, que incentivam as pessoas a assistir compulsivamente a seriados cômicos e dramáticos de TV.

Ao mesmo tempo, o crescimento dos grupos de leitura tem sido uma história de sucesso surpreendente. No Reino Unido, existem cerca de 50 mil grupos de leitura que se reúnem em bibliotecas, livrarias, pubs, hospitais, centros comunitários e, acima de tudo, nas casas das pessoas. No Brasil, embora não haja dados estatísticos, também é crescente o número desses grupos.

por Lucy Ash

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