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Publicado em: 11 de fevereiro de 2020

Ninguém é velho demais para aprender

Com 63 anos, Jerry Valencia decidiu se formar na universidade – e fazer o mestrado também.

Imagem: © Steve Lopez/LosAngelesTimes

O aluno chegou cedo, sentou-se na frente e, de várias maneiras, se destacou. Eu diria que ele tinha uns 40 anos a mais que seus colegas da turma de comunicação no campus de Los Angeles da Universidade da Califórnia. Participava com animação das discussões em sala, com humor autodepreciativo e a sabedoria da experiência. E sempre respeitava o ponto de vista dos outros alunos, como se cada um fosse um professor. Jerry Valencia entrava com um sorriso – e ia embora sorrindo também.

Certo dia, avistei Valencia no campus. Ele disse que teria de interromper as aulas naquele semestre para voltar no ano seguinte. Até lá, esperava ter ganhado dinheiro suficiente com trabalho na construção civil e arrumado a documentação do crédito educativo. Mas disse que ainda viria ao campus para participar de eventos ou ver amigos. E perguntou timidamente se ainda podia assistir à minha aula de comunicação.

Claro, respondi. Mas não receberia nenhum crédito.

Logo, lá estava Valencia de volta à antiga carteira, na frente, participando de nossa discussão sobre como encontrar e contar histórias em Los Angeles – um estudante de 63 anos com tanta energia e curiosidade quanto qualquer jovem da turma.

Valencia na Universidade com os colegas de turma.
© Steve Lopez/LosAngelesTimes

Num trabalho sobre mudanças no bairro, Valencia escreveu sobre a lanchonete favorita de uma cadeia local que foi “fechada sem cerimônia”. Ele chamou o fato de “terremoto” e furto da infância. “É quase como se alguém roubasse aquela infância e a substituísse por um morro escorregadio onde tudo o que gostamos descerá para longe”, escreveu.

Muitos colegas de Valencia sabiam que ele não conseguiria pagar o semestre, mas ainda fazia o dever de casa.

“Aqui está ele, assistindo às aulas de boa vontade, só pelo prazer e pelo benefício de aprender”, diz Jessica Espinosa, estudante de 25 anos. “Não se vê isso em nossa geração.”

Valencia também compareceu para fazer as provas finais. Depois, os alunos estavam batendo papo e ouvi Valencia dizer que queria ficar na faculdade até terminar o mestrado, mas que levara 12 anos para fazer o community college (curso pré-universitário de dois anos), portanto ainda teria um longo caminho pela frente.

Doze anos? Ele entrava e saía da escola, explicou, sujeito ao horário de trabalho e a ter dinheiro para pagar as mensalidades. Conseguira o diploma em letras e artes durante o verão e se transferiu para a Universidade da Califórnia para o bacharelado.

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Por enquanto, Valencia mora num estacionamento de motocasas. Ele me recebeu quando cheguei e me serviu um cafezinho. Disse que seu pai trabalhara numa olaria fazendo tijolos e na montagem de automóveis. A mãe trabalhava em casa. A maioria dos sete irmãos e irmãs não foi para a faculdade, e nenhum terminou. Valencia está decidido a ser o primeiro, apesar do início tardio.

Ele disse que foi um aluno mediano que teve dificuldade com a matemática e foi para o community college um ano depois de terminar o ensino secundário, mas logo decidiu que não era para ele. Foi trabalhar na construção civil, depois no setor de seguros, mas sempre gostou de escrever e resolver palavras cruzadas. “E adorava ler. Muito”, contou.

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Também gostava de assistir com a mãe ao programa de perguntas e respostas Jeopardy! e brincava que, se ganhasse na loteria ou participasse do programa, ele usaria o prêmio para pagar a faculdade.

Foi aproximadamente em 2007 que ele se cansou de dizer a si mesmo que ia voltar e contou à mãe que agora seria de verdade. “Quando recomecei a estudar, ela me disse que tinha esperanças de que eu conseguisse. E eu lhe disse: ‘Vou conseguir, mãe’.”

O plano era aproveitar sua experiência em obras e estudar engenharia civil. Mas ele descobriu outros interesses. “Não era o aluno mais jovem”, diz Grant Tovmasian, treinador da equipe de debate jurídico de que Valencia participou. “Mas era o mais motivado, o mais dedicado.”

Tovmasian diz que nos debates Valencia foi um ótimo participante que incentivava os colegas e os inspirava com seu desejo de se instruir e ter uma vida mais gratificante.

Sindi Majors, irmã de Valencia, diz que o irmão sempre foi brilhante, mas passou por períodos difíceis na vida. “Ele ficou praticamente sem teto”, diz Majors, eletricista aposentada. Ela comprou uma motocasa para ajudar o irmão, e foi onde ele morou de 2009 a 2018.

Há algo esplendidamente irracional na determinação de Valencia de se formar na faculdade e depois fazer o mestrado. No ritmo atual, ele terá 90 anos quando pendurar todos os diplomas na parede.

Mas isso não parece relevante. Ele acha estimulantes a energia juvenil e a oportunidade acadêmica.

A nota de Valencia em meu curso desse semestre não vai aparecer no boletim. Mas vou lhe dar um 10 – e, naquilo que é mais importante, isso conta.

POR STEVE LOPEZ

Los Angeles Times (December 5, 2018), Copyright © 2018 by Los Angeles Times, latimes.com.

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