A cada dois ou três meses, Thyago Ohana sai pelas ruas movimentadas de Viena com um grande sorriso e um cartaz onde se lê “Abraços gratuitos”.
O brasileiro de 33 anos, que trabalha com comércio internacional na embaixada da Índia em Viena, escolhe um local popular como a histórica rua comercial Kaerntner Strasse. Ali ele abre os braços para quem quiser experimentar o toque humano, na forma de um abraço caloroso.

Ele faz isso porque, em 2012, quando estava se sentindo muito estressado e ansioso numa visita a Paris, um desconhecido lhe deu um abraço gratuito. Ele nunca esqueceu o modo como o abraço o encheu de calma e alegria inesperadas.

Para quem aceita a oferta, o abraço recebido faz rir e sorrir. Às vezes faz mais, como no caso da idosa num grupo de turistas que parou para observá-lo. O grupo continuou, porém ela pediu:

– Posso receber um abraço?

– É claro! – respondeu Thyago, que a envolveu em seus braços.

Quando se separaram, ela continuou segurando os ombros do rapaz e o olhou nos olhos.

– Obrigada – disse ela. – Não me lembro da última vez em que fui abraçada assim.

É uma lembrança que ainda emociona Thyago. “Foi um momento muito forte de conexão humana. É por isso que continuo fazendo isso.”

O poder do toque

Dos cinco sentidos do ser humano, o tato é o que tendemos a valorizar menos e o que mais nos faria falta. “Uma criança pode nascer cega ou surda e crescer sem problemas, sem prejuízo cognitivo”, diz o neurocientista americano David J. Linden. “Mas se o bebê for privado do toque social amoroso durante os dois primeiros anos de vida, desastres de todo tipo acontecerão.” O Dr. Linden é autor do livro Touch: The Science of Hand, Heart and Mind (Tato: a ciência da mão, do coração e da mente).

Linden cita a experiência terrível de algumas crianças pequenas privadas do toque amoroso em orfanatos romenos nas décadas de 1980 e 1990. Ele explica que, além das dificuldades psicológicas e intelectuais, seu sistema imunológico e o sistema digestório não se desenvolveram adequadamente.

Pesquisas atuais incentivam a acariciar os bebês prematuros e pegá-los no colo com frequência, mesmo que seja por aberturas especiais nas incubadoras. E também por isso as aulas de técnicas de massagem infantil têm partidários fervorosos no mundo inteiro.

Elsie Peña Tretvik, de Molde, na Noruega, buscou essas aulas porque queria acalmar e interagir com a filha. A pequena Maya tinha muita cólica. Nascida e criada na Costa Rica, Elsie visitou a terra natal quando Maya, estava com 3 meses. Mas toda noite a filha passava até três horas chorando sem parar.

Uma de suas antigas amigas, Paola Rodríguez, era presidente da Associação Internacional de Massagem Infantil, que tem uma filial na Costa Rica. Quando Elsie entrou em contato para pedir ajuda, ela lhe sugeriu que fizesse um dos cursos da entidade. O curso mudou a vida de Elsie. “Além de ajudar Maya a relaxar e aliviar a cólica, aprendi a ler suas deixas emocionais, e minha confiança como mãe aumentou.”

A ciência procura explicar

Só em anos mais recentes a ciência começou a compreender o sistema extremamente complexo de nervos, sensores e receptores que ligam a pele e o cérebro ao meio ambiente e às outras pessoas. Linden diz que “ainda há muito que não sabemos sobre as várias sensações do tato”. No entanto, sabemos que “há sensores separados para textura, vibração, pressão e coceira”, diz ele.

Um dos principais pesquisadores do tato no mundo é o Dr. Håkan Olausson, professor de Neurociência Clínica da Universidade de Linköping, na Suécia. Ele fazia parte da equipe que descobriu fibras aferentes C, fibras especiais do tato responsáveis por registrar e transmitir o significado emocional de toques e carinhos. Esses nervos reagem muito bem quando tocados a cerca de 32°C – a temperatura da mão humana. “Eles são especialmente sensíveis aos carinhos dos outros, mas também reagem a muitos tipos de toque, como pressões na pele”, diz o Dr. Olausson.

Quando não funcionam direito, as fibras C táteis podem dificultar a ligação emocional com outras pessoas. A pesquisa encabeçada ano passado pelo neurocientista Francis McGlone na Universidade Liverpool John Moores, na Inglaterra, constatou que as crianças no espectro do autismo podem ter um funcionamento diferente das fibras C táteis e achar desagradável o toque suave de outra pessoa.

Quando envelhecemos, o tato fica menos sensível, mas o Dr. Olausson e outra equipe de pesquisadores descobriram que o prazer do toque se mantém e até aumenta com a idade.

Os idosos talvez sejam os mais privados dele. Linden observa que a pesquisa deixa claros os benefícios da massagem e de outras formas de toque social para idosos. Mas isso ainda não se espalhou amplamente por casas de repouso e outros serviços de saúde voltados à terceira idade.

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Alívio para os doentes

O Dr. Manuel Arroyo-Morales é professor de fisioterapia da Universidade de Granada, na Espanha, onde pesquisadores estudam “o efeito das mãos sobre o corpo humano”. Ele e sua equipe estão interessados no impacto da massoterapia em pacientes com câncer. Já verificaram que ela reduz parte da dor e da fadiga, fortalece o sistema imunológico e diminui a ansiedade.

Um achado importante foi que alguns resultados dependem da atitude do paciente perante o toque e do relacionamento entre terapeuta e paciente. O tipo específico de massagem e o “relacionamento de toque consensual” é que trazem os maiores benefícios, diz o Dr. Arroyo-Morales.

Joannie McCutcheon, 65 anos, sabe disso por experiência própria. Em 2005, ela morava em Amsterdã e trabalhava como especialista em informática de uma multinacional. Então recebeu o diagnóstico de dois tumores no cérebro. Um era um meningioma benigno, o outro um oligodendroglioma mais agressivo. Ela os batizou de Melanie e Ollie. “Eles faziam parte de mim; eu precisava aceitá-los.”

Joannie fez uma cirurgia para remover parte de Ollie (a outra parte era inoperável), que, em geral, mata em poucos anos. Separada do marido e com filhos adultos, ela voltou para a Escócia em 2007. Em 2015, tornou-se voluntária da Iris Cancer Partnership, entidade que oferece a pacientes com câncer massagens gratuitas feitas por terapeutas formados. Joannie aplica seu conhecimento de informática na diretoria da Iris e, como paciente, recebe uma massagem de três em três semanas de Angela Secretan.

“Posso chegar exausta e com dor de cabeça. Ela massageia minha cabeça ou as costas e faz reflexologia nos pés. Parece que ela sabe instintivamente do que preciso, e juntas decidimos o que é melhor para mim naquele momento. É sempre maravilhoso, e saio sentindo que está tudo bem outra vez.”

Ligação emocional 

Além de sustentar a vida, a ligação emocional da terapia do toque também pode ter um efeito profundo e comovente no fim da vida. Simon Robey sabe disso muito bem. Ele é coordenador de terapias complementares e chefe interino do tratamento de apoio da casa de repouso St. Joseph’s, em Londres. Como parte do tratamento, a entidade oferece uma variedade de terapias do toque. Não só aos pacientes moribundos, como aos familiares e entes queridos, todos sob o peso de um enorme estresse.

Simon Robey descreve a experiência de uma moça de 30 e poucos anos, a poucas horas da morte. A família lhe dava assistência e ficava a seu lado dia e noite, mas o terapeuta deu apoio adicional com massagens nas mãos, pernas e pés. “Ela perdia e recuperava a consciência, mas todos notamos que ficou bem mais relaxada e realmente reagiu àqueles toques sensoriais. Para a família, foi bem tranquilizador ver que aquilo ajudou a deixar mais confortáveis suas últimas horas de vida.”

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Toques diários

E como obter mais toques amorosos na vida cotidiana enquanto estamos fortes e saudáveis? Para alguns, a resposta são as “festas do aconchego”: eventos não sexuais de três horas ou mais cujos participantes só fazem se aconchegar.

O Salão Irlandês do Aconchego ocorre em Dublin, na Irlanda, no terceiro domingo do mês. Wendy Stephens, 33 anos, soube dele por uma amiga. Solteira, morando perto de Dublin, ela estava nervosa e achava que poderia ser constrangedor. Mas acabou tendo uma experiência linda e não faltou mais desde então. O sono e o apetite melhoraram, os sentimentos de solidão diminuíram e hoje ela se aceita melhor.

O neurocientista David J. Linden diz que, dentro das regras e ideias culturais, “maximizar o toque na vida é uma coisa boa”. Pode-se fazer isso com massagens terapêuticas, dando as mãos, acariciando um cão, indo ao cabeleireiro, abraçando os filhos, os parceiros e até desconhecidos. “Quando pomos as mãos uns nos outros”, disse Linden à AARP Magazine, “mobilizamos associações profundas entre o toque e a emoção que foram despertadas na aurora da vida.”

POR ANNE MULLENS

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