Eles não receitam remédios nem empunham o bisturi nas cirurgias. Mas são os enfermeiros e técnicos de enfermagem que ficam 24 horas por dia com os pacientes, que os consolam e ajudam em suas necessidades mais básicas.

Pedimos a 10 enfermeiros e técnicos de enfermagem do Brasil que nos contassem a verdade nua e crua da profissão, e eles não se intimidaram.

De dicas para tornar procedimentos comuns menos dolorosos até a verdade sobre como lidam com os pacientes mais difíceis, o que contam nos ajudará a termos um atendimento melhor numa possível passagem pelo hospital – e a pensar duas vezes antes de apertar aquele botão para chamar os enfermeiros. 

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Segredinhos dos enfermeiros

1. “Ao ver um paciente sofrendo demais, não temos autonomia para medicá-lo por nossa conta ou alterar a prescrição. Mas, com jeitinho, já implorei a um médico que prescrevesse outra medicação. Muitas vezes sou eu mesma quem sugiro o medicamento.”

2. “Jamais vou lhe dizer que o seu médico é incompetente, mas se eu o aconselhar a procurar uma segunda opinião, saiba que o que estou tentando lhe dizer, na verdade, é que não confio tanto assim nele.”

3. “Aquele paciente que, em geral, trata bem todos os funcionários, desde nós, enfermeiras, até a equipe de apoio, tem mais chance de ser bem-cuidado. Os mais rudes acabam esperando mais tempo para terem suas necessidades atendidas.”

4. “Muitos pacientes deixam as reclamações e as dores para relatar às enfermeiras, pois muitas vezes têm medo de falar com o médico no momento da consulta.”

5. “Com a enorme oferta de cursos de técnicos de enfermagem, muitos recém-formados são lançados nos hospitais sem o devido preparo. Por causa da inexperiência e da extenuante jornada de trabalho, às vezes com 24 horas ininterruptas de atividade, nem sempre trabalham em sua capacidade máxima.”                  

6. “Para pacientes com desorientação, que não podem ser sedados, às vezes ensinamos o nome de um colega. Assim, eles o chamam a qualquer momento.”

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7. “No Brasil, todo paciente maior de 60 anos ou menor de 12 ou que tenha deficiência física ou mental atendido na rede do SUS tem direito, por lei, a um acompanhante. No entanto, na maioria dos hospitais, essa informação não é divulgada. Se o paciente sabe disso, ele cobra o seu direito. Mas, se não souber, ninguém irá lhe contar e ele pode ficar sem acompanhante.”

O que realmente pensamos

8. “Já vi o rompimento de um tumor cancerígeno de cabeça e pescoço em que o paciente sangrava por todos os orifícios. Mesmo estando assustadíssima e sabendo que ele podia morrer a qualquer momento, eu disse a ele: ‘Calma, não se preocupe, sua médica já está vindo e vamos resolver seu problema.’”

9. “A situação mais difícil que já passei foi ter de dizer a uma mãe que nós não conseguimos salvar sua única filha, ainda jovem. As mães sabem o que vamos dizer pela nossa expressão, mas nós não queremos falar e elas não querem ouvir. O ‘sinto muito’ parece não ter significado. Mas nós, enfermeiros, realmente sentimos muito.”

O que queremos que você saiba

10. “A diferença entre o enfermeiro e o técnico de enfermagem é que o primeiro fica com o serviço burocrático, como escrever relatórios sobre os procedimentos que foram realizados durante o plantão. Mas o técnico de enfermagem é quem fica em contato direto com o paciente. Esta é a realidade da maioria dos hospitais no Brasil.”          

11. “Ao chegar à unidade de saúde, é muito importante que o paciente revele tudo: os medicamentos que toma, inclusive os fitoterápicos, doenças hereditárias e hábitos – até mesmo tomar chá. Essas informações podem interferir ou comprometer na obtenção de um diagnóstico.”

12. “Ninguém faz ideia do volume de burocracia e relatórios que temos de produzir todo dia. Passamos horas no computador só preenchendo formulários. E, se não preenchermos direito,  não recebemos o valor do atendimento e ainda corremos o risco de responder a um processo judicial e ético.”

13. “Para a enfermagem, o pôr do sol não significa o fim de um dia e sim a realização da metade de uma missão que sempre estará em andamento.”

14. “Somos seres com fragilidades, medos, sonhos, desejos, frustrações. Afinal, somos humanos. Procuramos trabalhar com frequência nossa empatia e escuta, mas algumas vezes podemos falhar. Não há nada mais recompensador do que receber o carinho dos pacientes. Como costumo dizer para as pessoas de quem cuido: faremos nosso 100%, mas precisamos que você também faça a sua parte. Sem a sua parceria tudo fica mais complicado.”

O que nos irrita

15. “Jamais diga para mim: ‘Você é inteligente demais para ser enfermeira.’ Fiz faculdade de enfermagem porque queria ser enfermeira, não porque queria ser médica e não consegui. Já ouvi isso e respondi que estudei bastante, pois tenho duas especializações e vários cursos complementares e pretendo estudar mais para fazer mestrado e doutorado em enfermagem – e não medicina.”

16. “Sempre há aqueles pacientes que ‘batem cartão’ todo dia no posto de saúde, mesmo não sendo hipertensos ou diabéticos e até sem outro diagnóstico para acompanhamento. Muitos deles até falam: ‘Não tinha o que fazer e vim ao posto!’ Isso nos irrita, pois acabam preenchendo a vaga de quem realmente precisa.”

17. “Os pacientes mais graves às vezes são os que menos reclamam. Já tive pacientes sentindo dores terríveis e que nada pediam para não incomodar a equipe de enfermagem. Em compensação, já vi muitos com uma unha inflamada ou um pé torcido que não nos deixavam em paz.”

As mentiras que contamos

18. “Não vou dizer para um paciente em tratamento paliativo que ele ficará curado apenas para tranquilizá-lo. Mas não tenho o direito de minar sua esperança de continuar lutando. O que digo é que o tratamento vai proporcionar uma qualidade de vida melhor, que ele vai conseguir conviver com a doença de maneira menos pesada. Reforço que nesta nova etapa ele também é a peça mais importante do processo e que estaremos ali para auxiliá-lo.”                  

O que fere nossos sentimentos

19. “Foi difícil lidar com as enfermeiras mais experientes no meu primeiro emprego. Muitas delas se recusavam a me orientar quando eu precisava de ajuda e ainda faziam questão de me corrigir na frente de todo mundo. Aprendi logo o quanto nosso trabalho é estressante e que muitas acabam descontando umas nas outras.”

20. “Todos os que estão num hospital ficam muito carentes. Muitas vezes os pacientes precisam mais do nosso cuidado, do afago e do nosso acolhimento do que da própria medicação. E quem faz isso é o técnico de enfermagem. Às vezes temos de ser até psicólogos. E adquirimos amor pelos pacientes, porque nos envolvemos com eles.”          

Segredinho final

21. “Se vai colher sangue para exame laboratorial, procure se hidratar antes – se não houver contraindicação –, pois isso facilita a visualização da veia. Outra dica é tentar não se estressar ou ficar com medo, pois isso causa constrição dos vasos e, portanto, a enfermeira terá mais dificuldade para puncionar a veia.”

Enfermeiros e técnicos de enfermagem que participaram da reportagem: Adnairdes Cabral de Sena, Ana Maria Ligeiro da Mata, Cláudia da Silva Alves Celles, Denise Costa, Graziela Borges, Iara Diniz, Irma da Silva Barbosa, Kelly Garbelini, Mônica Reis e Sandro André.