Muita gente, em situações letais, não age com rapidez suficiente para salvar a própria vida. Gravações do terremoto japonês de 2011 mostraram pessoas arriscando a vida e correndo para impedir que garrafas de bebida se quebrassem num supermercado. E, quando um avião pousou com o motor em chamas no aeroporto de Denver em 2017, os passageiros se demoraram junto ao avião para observar as chamas e tirar fotografias. “O treinamento de sobrevivência não é só para ensinar o que fazer; também é para inibir certas ações que as pessoas fazem como rotina”, afirma John Leach.

John é psicólogo de sobrevivência da Universidade de Portsmouth, na Inglaterra. Ele estima que, numa crise, 80% a 90% das pessoas reagem de forma inadequada.

Diante de notícias frequentes de desastres aéreos e de mais um tsunami na Indonésia, em 23/12, voltamos a nos perguntar: quais são os comportamentos a se evitar num cenário que ameace a vida? Confira abaixo as dicas e descubra o que NÃO fazer!

Paralisia

Uma das reações diante do perigo é, simplesmente, não fazer nada. Ano passado, no atentado à faca na estação London Bridge do metrô de Londres, um policial de folga que se atracou com os atacantes descreveu os espectadores parados “como cervos diante dos faróis”.

A reação é tão universal que os psicólogos falam da resposta a ameaças em termos de fuga, luta ou paralisia. Enquanto diversas substâncias neuroquímicas correm pelo corpo e os músculos se tensionam, o primitivo cerebelo, na base da nuca, envia um sinal que nos mantém parados no mesmo lugar.

O mecanismo é o mesmo em todo o reino animal – indo de ratos a coelhos, como o último recurso para impedir que o predador nos perceba. Mas, num desastre, combater esse impulso é fundamental para a sobrevivência.

Incapacidade de pensar

Na Guerra do Golfo, Israel se preparou para um ataque do Iraque com gás venenoso. Máscaras de gás e o antídoto para o gás dos nervos foram distribuídos à população. Ao som de um alarme, o público deveria se abrigar numa sala “segura” e bem fechada e pôr a máscara.

Entre 18 de janeiro e 28 de fevereiro, houve 39 ataques com mísseis a Israel, a maioria deles contra Tel-Aviv. Embora nenhuma arma química fosse usada, mais de mil pessoas se feriram. Mas não do jeito que se imaginava.

As internações hospitalares revelaram que apenas 22% das baixas foram causadas diretamente por uma explosão. A imensa maioria – mais de oitocentas pessoas – se feriu indiretamente em consequência do medo provocado pelo sinal de alarme.

Sete mortes ocorreram porque as pessoas puseram a máscara de gás e se esqueceram de abrir o filtro. Duzentas e trinta pessoas injetaram o antídoto contra gás, embora não tivessem sido expostas. Quarenta ferimentos (geralmente entorses e fraturas) se deram enquanto as vítimas corriam para a sala fechada.

O que estava acontecendo?

Nosso cérebro é de uma lentidão desconcertante; os desastres, no entanto, são rápidos. Os fabricantes de aviões são obrigados a mostrar que o avião pode ser evacuado em 90 segundos. Isto ocorre pois o risco de que a cabine seja consumida pelo fogo aumenta drasticamente depois desse tempo. Enquanto isso, a maioria ainda está tentando abrir o cinto de segurança.

“O cérebro tem uma capacidade limitadíssima de processar informações novas”, diz Sarita Robinson, psicóloga da Universidade de Central Lancashire, na Inglaterra.

Num desastre, a velocidade com que pensamos vai de mal a pior. “Quando passamos por situações muito estressantes, o corpo libera vários hormônios, como cortisol, adrenalina, norepinefrina e dopamina”, diz Sarita. Esse coquetel de hormônios prejudica o funcionamento do córtex pré-frontal, responsável por funções de alto nível, como a memória de trabalho. Quando mais precisamos de inteligência, ficamos esquecidos e propensos a tomar decisões ruins.

Visão em túnel

Numa crise, é tranquilizador achar que reagiríamos pensando criativamente num modo de contornar o problema. Mas, pode acreditar: é o contrário. Uma reação típica aos desastres é a chamada “perseverança” – tentar resolver um problema de uma única maneira, repetida muitas vezes.

Os problemas com cintos de segurança são comuns em aviões leves, onde eles costumam se fechar no ombro; mas a pessoa procura automaticamente a fivela na cintura e entra em pânico porque não a encontra. Outros incidentes mostraram que, numa crise, os pilotos tendem a ficar obcecados por um único equipamento ou reação.

O curioso é que essa visão em túnel também existe em quem sofre lesão permanente do córtex pré-frontal, ou seja, a resposta do cérebro ao estresse paralisando essa região pode ser responsável pelo pensamento inflexível em momentos de crise.

Prender-se à rotina

Diante disso, voltar para buscar a carteira quando sua casa está em chamas parece loucura ou estupidez. Mas é tão comum que os psicólogos especializados em sobrevivência lhe deram um nome: “comportamento estereotipado”.

“Quando sai de casa, você pega a carteira. E nem pensa nisso. É automático”, diz James Goff, especialista em gerenciamento de desastres e emergências da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália.

Em 2016, quando o voo 321 da Emirates fez um pouso de emergência no Aeroporto Internacional de Dubai, surgiram filmagens de passageiros correndo em torno do avião para pegar as malas. Por sorte, nenhum passageiro foi morto em consequência disso.

Por que não conseguimos desligar esses reflexos inconscientes?

Nosso cérebro depende da familiaridade. Em cenários sem desastre, pegar a bolsa sem pensar quando o avião pousa libera espaço mental para nos concentrarmos em coisas que ainda não enfrentamos – como nos orientar no aeroporto de uma cidade estrangeira. “Estamos no presente, mas olhamos o futuro”, diz Leach.

Numa emergência, o ajuste à nova situação pode ser demais para o cérebro. E tendemos a continuar como se nada estivesse acontecendo.

Negação

Em situações extremas, há quem chegue a ignorar completamente o perigo. “Invariavelmente, mais de 50% da população faz isso; vai à praia para ver o tsunami”, diz Goff, que trabalha para aumentar a consciência pública sobre tsunamis em áreas de alto risco.

De acordo com Sarita Robinson, a negação costuma acontecer por duas razões: as pessoas não conseguem interpretar a situação como perigosa ou simplesmente não querem vê-la assim.

Essa última razão é comum em incêndios florestais, porque abandonar a casa geralmente significa condená-la à ruína.

“As pessoas tendem a esperar até verem a fumaça, e, geralmente, aí é tarde demais para partir”, diz Andrew Gissing, especialista em gerenciamento de riscos de emergência da empresa de consultoria Risk Frontiers.

Quando há muita coisa em jogo, nosso cérebro tende a banir as ideias estressantes. Isso pode explicar por que um estudo recente indicou que pacientes com câncer esperam, em média, quatro meses antes de procurar um médico para examinar seus sintomas.


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Então o que se deve fazer num desastre?

Para Goff, a sobrevivência depende de um plano. “Se você souber com antecedência o que está fazendo e começar cedo, geralmente é possível se afastar de um tsunami”, diz ele. “Mas pode ser meio complicado.”

Leach tem anos de experiência treinando militares a escapar de situações amedrontadoras, de ameaça a reféns a helicópteros que caíram na água. Ele sabe que a melhor maneira de contornar os efeitos mentais é substituir as reações automáticas imprestáveis por outras que possam salvar vidas.

“É preciso criar comportamentos adaptativos de sobrevivência que se tornem a reação dominante numa emergência”, diz ele.

Em geral, uma única exposição é suficiente para a reação de sobrevivência ser criada e absorvida. Preparar-se, agir depressa, romper a rotina e evitar a negação podem ser maneiras de sobreviver nas piores situações – mas às vezes também precisamos de uma boa dose de sorte.

Por Zaria Gorvett da BBC FUTURE

BBC FUTURE (JULHO DE 2017), © 2017 DE BBC, BBC.COM