Nosso carro segue para o nordeste de Londres, e um motorista logo atrás de nós finca a mão na buzina quando uma mulher atravessa correndo um cruzamento com o semáforo vermelho para pedestres. “Essa buzinada não foi para dizer ‘estou aqui’”, diz Richard Gladman. “Foi uma repreensão.”

Estou com Gladman para investigar todos os aspectos da fúria ao volante numa reportagem para a revista Seleções. Ex-instrutor de condução de veículos da polícia, hoje ele é diretor de padrões de direção da IAM RoadSmart (entidade de segurança no trânsito do Reino Unido). Gladman explica que o impulso desse motorista – buzinar para a pedestre que errou – era afirmar que está “certo”.

Ele também explica que esse é um exemplo do tipo de pequena irritação que pode se transformar – e realmente se transforma – em fúria total ao volante. E acontece todo dia nas ruas e estradas sobrecarregadas da Europa.

A perigosa história da fúria dos motoristas

A fúria dos motoristas tem uma longa história. A revista britânica The Oldie desenterrou um caso de “fúria em carruagem”, datado de 1817. Foi um indício antigo de que os seres humanos podem ter dificuldade para lidar com a irritação no trajeto entre o ponto A e o ponto B. Mas o nome atual em inglês, road rage, surgiu quando apresentadores de noticiários descreveram uma série horripilante de tiros em estradas que matou cinco pessoas na Califórnia no verão de 1987.

Hoje, com um número cada vez maior de carros nas ruas, mais e mais motoristas se veem presos no tráfego à mercê da fúria dos outros – ou da própria. O Barômetro Europeu de Direção Responsável de 2017, organizado pela Fundação de Direção Responsável das Autoestradas de Vinci, relatou que espantosos 80% dos europeus disseram ter “medo” da fúria dos outros motoristas ao volante; 54% admitiram que xingam outros motoristas.

Mesmo quando não leva à violência, a fúria ao volante se tornou mais do que uma esquisitice do comportamento dos motoristas, dizem os defensores da segurança no trânsito. Ela é sintoma de uma visão de mundo autocentrada; como se sentem anônimas em seus carros, as pessoas acham que podem ser grosseiras ou coisa pior – sem serem responsabilizadas por seu comportamento.

Louis Bez, de 34 anos, aprendiz de tatuador, diz que costuma ver motoristas berrando quando presos nas ruas engarrafadas de Paris, onde mora. O clima azeda, e palavras e gestos são trocados. Em certo momento, ele percebeu que fazia a mesma coisa. “Estou na privacidade de meu carro, mas ainda xingo em voz alta”, admite ele.

Como surge e se comporta a fúria ao volante?

A fúria ao volante surge “quando sentimos que alguém está nos atrapalhando”, diz Stan Steindl, professor adjunto de Psicologia da Universidade de Queensland, na Austrália. Os motoristas culpam os outros e não a si mesmos.

Em geral, costuma começar com atos raivosos menores. “Desabafar geralmente é negativo, e esse é o problema”, diz Steindl. Quando o motorista se sente insultado ou ameaçado, o sistema cerebral de luta ou fuga para reagir a ameaças entra em ação. “Um dos aspectos da reação de luta ou fuga é a raiva.”

Em geral, a impulsividade por trás da fúria explosiva ao volante é provocada por um evento que os responsáveis – que costumam ser “gente bem ajustada, com família, emprego, amigos” – consideram um ataque pessoal, diz Ludo Kluppels, psicólogo de tráfego do instituto Vias, que promove a segurança do trânsito na Bélgica.

Foi o que aconteceu na Alemanha, em 2015, quando um motociclista ameaçou Martin Kracheel e seu amigo. Quando, sem querer, eles se aproximaram demais do motociclista à frente, este desacelerou e fez um gesto para que parassem. “Ele veio andando até o carro”, diz Martin, de 33 anos. O motociclista praguejava e exigia que saíssem. “Ele queria bater na gente.” Martin ficou chocado. “Foi tenso”, diz ele, que sabia que tinham de fazer alguma coisa para acalmar a situação – e depressa. “Pedimos desculpas, e ele aceitou”, conta Martin.

Leia também: Seguro DPVAT 2019 sofrerá redução média de 63,3% no valor

Os motoristas que saem do carro para ameaçar ou fazer coisa pior estão na extremidade do espectro.

Quando liberada, a raiva prepara o caminho para a “lista trágica” de possíveis desfechos ruins, diz Leon James, psicólogo do tráfego e educador que, em julho de 1997, prestou depoimento sobre a fúria ao volante no Congresso americano.

Certa tarde, em Norfolk, na Inglaterra, Kirstie Robb, de 38 anos, levava os três filhos da escola para casa quando o carro na frente dela parou de repente. Ela pisou no freio, abrindo o braço para proteger o filho de 16 anos sentado a seu lado.

Alarmada, ela parou junto à calçada quando o outro carro também parou e desceu para ver qual era o problema. Quando se aproximou, ouviu o outro motorista xingá-la em voz alta e, zangado, acusá-la de não manter uma distância segura. O homem, ainda dentro do carro, lançou a mão na direção do rosto dela, numa ameaça, e continuou a gritar.

“Não fale assim comigo!”, advertiu ela. “Meus filhos estão no carro.” Então ela se zangou e acrescentou: “Vamos, me mande ‘cair fora’ mais uma vez!”

Ele mandou.

“Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa”, conta Kirstie, “ele pegou uma lata de aerossol e espirrou tinta vermelha em meu rosto. Quando abri os olhos, vi tudo vermelho. Fiquei alguns segundos sem respirar. Ouvi meus filhos gritando.”

Um problema que precisa de atenção

A falta de pesquisa e de atenção do governo à fúria ao volante continua espantosa, o que surpreende, dada a magnitude do problema. “A fúria ao volante só foi estudada nos Estados Unidos, na Austrália e na Bélgica”, diz Kluppels.

A maioria dos países não tem um crime tipificado para a agressividade ao volante, não coleta estatísticas e, pior ainda, pouco faz para prevenir o problema. É o caso do Brasil. Entre os poucos países que já fizeram alguma coisa está a Bélgica. Em 1990, esse país, na época com um dos piores quadros de segurança de trânsito na Europa, fez uma campanha contra a fúria ao volante com outdoors em Bruxelas. Foi uma das primeiras campanhas de educação pública para combater a fúria ao volante. Um dos outdoors mostrava o desenho de um motorista parecido com um touro com a frase: “Mantenha a humanidade ao volante!”

Mas não foi suficiente. Oito anos depois, as autoridades belgas ainda enfrentavam o problema. Os juízes viam-se assoberbados com uma onda sem precedentes de casos de fúria ao volante. Quando fez uma análise especial dos dados sobre crimes, a polícia de Antuérpia descobriu que, de julho de 1997 a junho de 1998, houve 299 casos de lesão corporal envolvendo fúria ao volante; eram 8% do total de casos de lesão corporal na cidade.

Leia também: Como agir em caso de acidente de trânsito: 8 dicas

Especialistas do instituto Vias foram chamados para investigar. A maior parte dos criminosos não tinha passagem pela polícia e era de pessoas de bom caráter. Assim, em 1998, o Vias recomendou para o problema uma abordagem pioneira que se mantém até hoje. Quando acusados de fúria ao volante, os motoristas não são levados automaticamente ao tribunal; agora, eles podem escolher. Em vez do juiz, podem optar pela mediação.

Os motoristas que escolhem a mediação fazem um curso de 20 horas. Psicólogos os levam a examinar o crime e trabalham com eles para encontrar formas alternativas de lidar com a irritação.

Mesmo assim, apesar dessas primeiras iniciativas, a fúria ao volante ainda é um problema na Bélgica. Este ano, o país começará a exigir que todos os motoristas recentes cumpram o “dia da reflexão” depois de serem aprovados. Nele, haverá uma sessão de uma hora sobre atitude. “Estou muito contente com isso”, diz Kluppels. “Mas é só um pequeno passo.”

Ele espera que o aprimoramento das autoescolas abra caminho para iniciativas como a que começou na Áustria em 2003. Esse país criou uma segunda fase na habilitação de motoristas na qual os recém-aprovados recebem aulas extras sobre comportamento ao volante, com discussões em grupo.

As exigências para novos motoristas foi um dos fatores da redução de 72% do índice austríaco de mortes no trânsito entre 1990 e 2014. Embora seja difícil dizer quanto dessa melhora se deve ao declínio da fúria ao volante, acredita-se que ele ajudou.

Um vislumbre de um futuro mais calmo

Um relatório informativo de 2004 intitulado “Comportamento Agressivo ao Volante”, realizado pela Comissão Econômica das Nações Unidas para a Europa, afirmou que a agressividade do motorista é reforçada pela cultura popular: a direção agressiva é mostrada em contexto divertido, como perseguições de carros nos filmes e nos videogames das crianças.

E os jovens aprendem com os pais. Leon James diz que “o banco de trás do carro é o berçário da fúria ao volante”. James diz que, para os países que tentam resolver a agressividade no trânsito, o segredo é criar níveis de habilitação, com várias fases: carteira de aprendiz, carteira intermediária ou provisória e, por fim, a definitiva. Isso aumentaria o número de horas sob supervisão antes de considerar os alunos motoristas habilitados; ensinaria respeito e obediência às regras; e, o mais importante, apresentaria o conceito de “aprendizado vitalício” na condução de veículos.

Medidas que estão sendo tomadas pelo mundo

Desde 2009, para os suecos que queiram tirar a carteira de habilitação são obrigatórias a frequência a um curso de percepção de riscos e pelo menos três horas de aula com um instrutor aprovado pelo governo. Desde 2006, o programa das provas de direção suecas inclui tópicos como controle de impulsos e compreensão de motivos. Depois de aprovados, os motoristas passam dois anos sob observação.

Karin Michaelsson, investigadora de habilitação, diz que a Agência de Transportes sueca mudou o foco da habilidade ao volante e da mecânica do automóvel para “quem você é como pessoa e como se comporta no tráfego, porque quem você é influencia seu modo de dirigir”.

“Não há pesquisa que mostre que, sozinho, isso teve impacto sobre os acidentes de trânsito”, diz ela. “No entanto, gostaríamos de pensar que teve.”

A visão holística que a Suécia tem da condução de veículos poderia ser usada para melhorar as atitudes dos motoristas de outros países. No Reino Unido, por exemplo, não há uma segunda fase obrigatória no processo de habilitação. Os jovens de 17 anos podem passar na prova sem nenhuma aula com um instrutor qualificado.

Ano passado, Richard Gladman, da IAM RoadSmart, organizou um programa-piloto na Escócia. Policiais levaram cerca de 200 adolescentes para algumas horas de treino num campo de pouso sem uso. Os jovens aprenderam a prestar atenção aos outros usuários da rua. Gladman gostaria de ver esse programa se desenvolver em maior escala em outras regiões do Reino Unido.

Cada motorista deve ser responsável por sufocar o “ciclo de conflito”, diz ele. A fúria ao volante começa com um motorista e cresce a partir daí.

POR ELEANOR ROSE

LEIA TAMBÉM