Faça uma busca
|
Publicado em: 1 de dezembro de 2020

Como fortalecer seu sistema imunológico

Entenda como o sistema imunológico muda com a idade, e como fazer para aumentar a nossa reserva.

Imagem: iStock

Uma coisa que a pandemia de Covid-19 deixou clara é que algumas pessoas que pegam o vírus não sofrem muito, enquanto outras ficam gravemente doentes. E, embora os idosos sejam bem mais atingidos, alguns, inclusive centenários, sobrevivem. Quanto aos mais jovens, cujo sistema imunológico seria mais robusto, muitos morrem em decorrência da doença.

Então, que fatores dão a algumas pessoas um sistema imunológico mais forte que o das outras, seja qual for a idade? Por exemplo, se seu companheiro ou filho adoece e você não – ou vice-versa –, o que isso significa?

Sabemos que o funcionamento do sistema imunológico piora com a idade. Quando comparamos uma foto nossa de dez anos atrás com a que foi tirada hoje à tarde, vemos mudanças no rosto, na pele, na cor do cabelo. Essas mudanças levam tempo.

“O mesmo acontece no sistema imunológico”, diz o Dr. Insoo Kang, professor adjunto de medicina e diretor de alergia e imunologia da Escola de Medicina de Yale.

Kang estuda o envelhecimento humano há 20 anos. “As células imunológicas, principalmente as células T CD8+ [um tipo de linfócito], mudam com a idade. Vemos menos células T CD8+, necessárias para reconhecer micro-organismos recém-surgidos, como o vírus da Covid-19. Acontece com todo mundo em algum nível, só que não no mesmo ritmo.

A diferença da taxa de declínio entre os indivíduos é um dos grandes mistérios da ciência. O sistema imunológico é complexo, mas a maioria de nós entende o básico: o corpo detecta um invasor – um vírus, bactéria, parasita ou objeto estranho – e produz leucócitos a fim de combater o problema.

A questão crucial é o número dessas células que produzimos, digamos, aos 73 anos ou aos 45. E essa questão está também no centro da pandemia da Covid-19. Como é possível que um homem de 104 anos sobreviva e pessoas com metade dessa idade, ou menos, não?

Felizmente, não estaremos sempre numa pandemia. Mas podemos usar este evento para entender de que maneira o sistema imunológico muda com a idade – e se é possível desacelerar o declínio e aumentar nossa reserva para a próxima vez que adoecermos.

Imunidade e velhice

Quando envelhecemos, o corpo simplesmente não produz mais tantas células imunológicas, diz o Dr. Atul Butte, professor de epidemiologia, bioestatística e pediatria do campus de São Francisco da Universidade da Califórnia.“Ninguém sabe direito por quê.”

Butte trabalhou com uma equipe de pesquisa numa extensa revisão de 242 estudos sobre imunidade que revelou padrões de mudança do sistema imunológico quando envelhecemos A quantidade de algumas células imunológicas importantes – as células B (leucócitos que produzem anticorpos para combater infecções) e T (leucóci-tos que atacam vírus) – diminui com a idade.

Por exemplo, temos duas grandes categorias de células T: as com “memória”, que já encontraram um determinado patógeno e “recordam” como combatê-lo, e as “virgens”, como o tipo CD8+ já mencionado, que ainda não combateram nada. “Vimos principalmente que o número de células T virgens é menor quando envelhecemos”, revela Butte.

Então, digamos que a Covid-19 apareceu. Nada que já vimos como seres humanos é igual a esse vírus, e não temos células T com memória para mobilizar (embora pesquisas novas indiquem que algumas pessoas podem ter formado alguma defesa se já encontraram outros coronavírus).

As células virgens precisam assumir a luta, e os mais velhos têm menos delas para lutar. Isso torna a maioria dessas pessoas mais vulnerável, mas não todas, porque o sistema imunológico não declina da mesma maneira em todo mundo.

Por exemplo, outro fator que Butte observou em seu estudo de revisão: certos idosos saudáveis tiveram pouco ou nenhum declínio das células T. Alguns tinham tantas células desse tipo quanto pessoas mais jovens, e as mulheres pareciam manter quantidade maior delas ao envelhecer.

Ninguém sabe direito qual é o número saudável de células B e T. Butte explica: “Quando fazemos um exame de hemoglobina, a faixa normal é conhecida. Quando fazemos um exame para ver o nível de ferro, a faixa normal é conhecida. Mas não fazemos ideia de qual é o nível normal dessas células. Nem mesmo as medimos em exames de sangue regulares.”

Pode haver muitas razões para o declínio dessas importantes células com o passar do tempo. Serão motivos genéticos? Será o estilo de vida? “Sabemos que a genética tem seu papel”, observa Butte. “Mas é discutível a importância desse papel quando comparado ao ambiente e ao estilo de vida.”

Fatores do estilo de vida como dormir mal, sofrer estresse crônico e engordar costumam causar inflamação crônica de baixo nível, além de problemas sistêmicos como doenças autoimunes e redução da função do fígado e dos rins.

Essa inflamação degrada o sistema imunológico porque o faz funcionar de forma anormal, com disparos constantes. Isso acelera o processo de envelhecimento em nível celular e pode causar doença cardíaca, diabetes tipo 2, doença de Alzheimer e outras, comprometendo o sistema imunológico sem que você perceba.

“A maioria dos sistemas do corpo é muito bem regulada”, diz o Dr. Sean Xiao Leng, geriatra e professor da Escola de Medicina Geriátrica da Universidade Johns Hopkins. “O sistema imunológico não é exceção, e por isso essa desregulação é tão perigosa.”

Como salvar seu sistema imunológico

Não podemos alterar nossa constituição genética, mas, por sorte, muitos fatores que afetam positivamente o sistema imunológico estão sob nosso controle. Leve-os a sério, insiste o Dr. Leng. Embora não se possa impedir a redução da imunidade com o envelhecimento, qualquer desaceleração significa uma reserva imunológica maior. Isso é fundamental quando há infecções.

Quando falamos de vulnerabilidade em adultos idosos, comenta Leng, há duas partes importantes: “Uma é a incidência: se pegamos ou não a infecção. Mas a outra parte é a gravidade. Mesmo que você não tenha o resultado desejado na incidência, a função imunológica mais forte pode determinar qual será a gravidade da infecção.”

Em outras palavras, cada grama de prevenção ajuda, como nos seguintes fatores:

MOVIMENTO

O exercício regular promove a função imunológica e reduz a inflamação. Um estudo publicado em 2019 na Nature Reviews Immunology observou que o músculo esquelético é um “grande órgão regulatório imunológico” que gera proteínas anti-inflamatórias e imunoprotetoras chamadas miocinas. Um estudo de 2018 constatou que exercícios mais intensos podem reduzir o declínio do sistema imunológico em idosos.

“O exercício fortalece o corpo e pode ser a intervenção mais importante a acrescentar ao estilo de vida”, sugere Kang.

AUTOCONHECIMENTO

Butte aconselha entender melhor como está sua saúde neste momento. Por exemplo, é bom que o asmático comece a medir seu fluxo de ar máximo para saber qual é sua função pulmonar normal.

“Quanto mais usarmos aparelhos e ferramentas digitais, mais compreenderemos”, afirma ele. “Se algo mudar, você vai ao médico e não dirá apenas ‘estou sem ar’. Você dirá: ‘Meu fluxo de ar caiu 8%.’” Manter-se a par das doenças crônicas que você tem lhe permitirá perceber rapidamente os declínios e, com o médico, decidir um tratamento melhor.

NUTRIÇÃO

Comer bem e evitar a obesidade, que é fatal no que diz respeito à inflamação, são atitudes de bom senso. Mas a pesquisa também revela efeitos nutricionais específicos sobre a função imunológica em idosos.

Um estudo resenhado em 2018 na revista Nutrients mostrou que nutrientes básicos, como as vitaminas A, C, D, E e as do complexo B, além de ácido fólico, ferro, selênio e zinco, são essenciais para a “imunocompetência”, e as deficiências provocam produção mais baixa de células T e incapacidade de resolver inflamações. Busque o equilíbrio, aconselha Kang:

“Não coma só legumes e verduras, mas também boas proteínas e fibras.” Estas últimas são importantes porque alimentam as bactérias boas do intestino e reduzem inflamações.

“Temos muitas células imunológicas no intestino que ajudam a regular a saúde. A fibra alimentar pode ter mais efeitos do que apenas fazer o intestino funcionar.”

CALMA

A pesquisa demonstrou que o estresse não regulado acelera o declínio do sistema imunológico. A questão é a reação imunológica crônica ao que nos estressa, e o resultado é o aumento da inflamação.

Nesse sentido, cuidar de si mesmo é fundamental – das atividades antiestresse (meditação, atenção plena, exercícios) aos pedidos de ajuda em situações estressantes mal resolvidas (trabalho, dinheiro, cuidados de crianças, de doentes e de idosos).

As pessoas não falam muito a respeito do efeito do estresse sobre a imunidade porque não é tão tangível quanto fatores como horas de exercício ou número de maços de cigarro por dia, observa Leng.

VACINAS

A idade, assim como a imunidade, cobra seu preço na eficácia das vacinas. Estas são projetadas para provocar a produção de antígenos (a vacina contra a gripe é feita com células de gripe), mas nossa reserva imunológica ao envelhecer não reage de forma tão robusta quanto na juventude. Nada disso deveria desestimular as pessoas a se vacinarem.

Leia mais: obesidade pode diminuir eficácia da vacina do Covid-19

“É verdade que as vacinas ficam menos eficazes quando envelhecemos”, diz Kang. “Mas, mesmo que você seja contaminado, a doença será menos grave. As pessoas deveriam tomar todas as vacinas recomendadas pelo médico com base na idade e nas doenças subjacentes.”

MEDICAMENTOS

Alguns remédios podem inibir o sistema imunológico. Por exemplo, corticosteroides orais ou inalados (comuns na artrite, nas alergias, na asma e na doença inflamatória intestinal) podem aumentar o risco de infecções por fungos.

O mesmo acontece com os inibidores do fator de necrose tumoral, que tratam doenças autoimunes como psoríase e artrite reumatoide.

“Até os antibióticos podem matar as bactérias intestinais e provocar alguns tipos de infecção”, confirma Kang. Se você toma remédios de uso contínuo, converse com o médico sobre possíveis efeitos colaterais no sistema imunológico e como resolvê-los. 

Lições da Covid-19

Além de incutir profundamente a necessidade de lavar as mãos e que distância significa dois metros, no fim das contas a pandemia de Covid-19 nos ensinará mais sobre as vulnerabilidades de nossa saúde, tanto individualmente quanto como população idosa. Butte acredita que haverá uma nova era na pesquisa da imunidade. “Vamos aprender muito e bem depressa.”

Leng prevê um grande ímpeto para conhecer melhor o envelhecimento e a imunidade com estudos da população idosa a fim de descobrir os mecanismos desconhecidos da resposta imunológica. Ele já faz parte de uma imensa iniciativa dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA na ciência geriátrica, que envolve centenas de pesquisadores.

“O modelo médico tradicional se concentra em doenças individuais”, diz ele. “Mas tentaremos ver se encontramos um mecanismo subjacente na imunidade, algo anterior no processo. Então poderemos fazer uma busca mais ampla, em vez de perseguir as doenças uma a uma. Se conseguirmos, a população idosa lidará melhor com todos os desafios imunológicos.”

por Mike Zimmermanda revista aarP

Assine a nossa newsletter e receba nosso conteúdo em primeira mão!

assine a nossa newsletter
Entendo que passarei a receber ofertas de produtos, serviços, informativos e presentes grátis, além de outras promoções de Seleções e de parceiros. Para mais informações, acesse nossa Política de Privacidade e Uso de Dados