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Publicado em: 8 de outubro de 2021

Como a insônia e a depressão estão ligadas

O bom é que tratar uma pode melhorar as duas

Imagem: Viacheslav Peretiatko/iStock

Com alguns meses de pandemia, Héctor González,* de 57 anos, visitou o Centro de Psicologia Álava Reyes, em Madri. Estava com insônia, como reação ao medo e à incerteza generalizados.

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De acordo com a psicóloga María Jesús Álava Reyes, diretora do centro, o executivo adormecia facilmente na hora de dormir, mas acordava duas ou três horas depois com pensamentos preocupantes que o deixavam inquieto. Finalmente ele cochilava e acordava pela manhã duas horas antes do necessário, preocupado com os pensamentos negativos. Com o tempo, a falta de sono azedou seu humor e afetou sua capacidade de funcionar

“A insônia produziu um nível altíssimo de ansiedade, que causava frustração frequente, e um cansaço que acabou levando à depressão”, relata Álava Reyes.

Insônia e depressão combinadas

Thomas Müller-Rörich, que mora perto de Stuttgart, na Alemanha, caiu em depressão quando tinha 38 anos e foi visitar a Sardenha com a família, em 1992. Durante a viagem, ele se sentiu inexplicavelmente infeliz, irritado e tenso. Gritou com os filhos por fazer barulho nas brincadeiras e brigou com a mulher sem motivo aparente.

Quando voltou para casa, seu humor não melhorou. Ele perdeu o apetite e não conseguia se concentrar na empresa de engenharia elétrica que administrava. Dali a dois anos, recebeu o diagnóstico formal de depressão.

Pouco depois, começou a ter insônia: acordava às 4 da manhã com sentimentos de ansiedade que não o deixavam voltar a dormir, impedindo ainda mais que fosse produtivo.

“A combinação de depressão e insônia claramente piorou a situação”, diz Müller-Rörich, hoje com 67 anos. “Eu me sentia vazio e dormente e achava que tudo o que tinha feito na vida estava errado.”

Cada vez mais a ciência constata que insônia e depressão estão ligadas. Em 2011, uma metanálise muito citada feita por pesquisadores de Freiburg, na Alemanha, mostrou que ter insônia dobra o risco de depressão quando comparado ao de quem não tem dificuldade para dormir.

Uma pesquisa de acompanhamento de 2020 comprovou que as duas têm uma relação bidirecional e que o tratamento precoce da insônia ajuda a prevenir a depressão, embora sejam necessários mais estudos.

Duas doenças perigosas

Tanto a insônia quanto a depressão afetam muita gente no mundo todo. Mais de 70 milhões de brasileiros têm insônia crônica, o transtorno do sono mais comum. Também no nosso país, 5,8% dos adultos sofrem com depressão, o transtorno de saúde mental mais comum, ao lado da ansiedade. E algumas pessoas, como Thomas Müller-Rörich e Héctor González, têm as duas ao mesmo tempo.

“É comum a depressão e os transtornos do sono ocorrerem juntos”, diz o Dr. Hans-Günter Weess, psicoterapeuta especializado em sono e chefe do Centro Interdisciplinar do Sono da Pfalzklinikum, em Klingenmünster, na Alemanha. “Até 80% das depressões são acompanhadas de transtornos do sono. São problemas irmãos.”

Cerca de metade das pessoas com insônia se queixa de sintomas de depressão. “O risco de desenvolver a depressão é até três vezes maior em relação a quem não tem transtorno do sono”, acrescenta o Dr. Weess.

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As duas doenças afetam negativamente a saúde. Quem sofre de insônia crônica tem mais probabilidade de ter o sistema imunológico fraco e adoecer com mais frequência e corre risco maior de hipertensão, diabetes tipo 2 e doença cardíaca. Quem tem depressão crônica apresenta probabilidade maior de estresse, dor crônica e ganho de peso, e corre o risco de abusar de drogas e álcool.

Nem sempre as pessoas sabem quem veio primeiro, a insônia ou a depressão, mas não é necessário ter certeza. A pesquisa mostra que tratar uma delas pode melhorar os sintomas de ambas. “Não é como o caso do ovo ou da galinha, do que causou o quê”, diz o Dr. Dan Chisholm, gerente de programas de saúde mental da sede europeia da Organização Mundial da Saúde, em Copenhague. “O que pode ajudar uma delas ajudará as duas doenças.”

Por que a insônia aumenta o risco de depressão

mulher com insônia
Com insônia crônica, você se sente indefeso, o que também é típico da depressão. (Imagem: demaerre/iStock)

As pessoas com insônia podem ter dificuldade de desligar a mente na hora de dormir. 

“Elas têm reações breves e muito frequentes de despertar o tempo todo”, diz Dieter Riemann, chefe de psicofisiologia clínica do Centro Médico da Universidade de Freiburg e fundador da Rede Europeia de Insônia. Riemann foi um dos autores dos estudos de 2011 e 2020 já mencionados. “Em geral, se você dorme bem, todo o seu cérebro e todos os centros relevantes do cérebro entram no estado de sono. Supomos que, na insônia, algumas partes do cérebro não dormem tão profundamente.

Perder o sono repetidamente dessa maneira afeta o humor. “Nas horas de vigília, é mais provável ficar irritado, um pouco exausto, um pouco menos disposto a interagir socialmente”, diz o Dr. Chisholm. 

Se fitar o relógio a noite toda, em pânico porque estará um lixo amanhã, você pode se sentir impotente para se ajudar. “Queremos controlar tudo, mas não é possível controlar o sono, que é involuntário”, diz Riemann. “Insônia crônica significa se sentir indefeso. E se sentir indefeso é uma característica típica da depressão.”

Por que a depressão aumenta o risco de insônia 

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Um sintoma clássico da depressão é a alteração dos hábitos de sono. Muita gente com depressão tem insônia de forma corriqueira. 

“Em geral, a depressão é diagnosticada por meio de uma lista que inclui falta de sono, assim como irritabilidade, sensação de tristeza etc.”, diz o Dr. Chisholm. “Nesse sentido, há uma relação clara entre a depressão e um de seus sintomas.

Às vezes, circunstâncias traumáticas da vida provocam uma reação tão forte que as pessoas apresentam depressão e insônia.“Alguém pode estar numa situação psicológica de estresse ou pesar que causa sintomas de depressão e de insônia”, diz o Dr. Alexander Sweetman, pesquisador que estuda insônia na Universidade Flinders, em Adelaide, na Austrália.

“A pandemia causou um aumento desses problemas de saúde mental”, acrescenta Riemann. “Estão ligados ao medo: posso me contaminar? Ao lockdown. Às consequências sociais. Às consequências econômicas. E muita gente passou a trabalhar em casa e teve a estrutura da vida alterada.

Há tratamento para as duas doenças

Lidar sozinho com insônia ou depressão já é extenuante; ter os dois problemas ao mesmo tempo é um grande desafio. Mas há muitos recursos para ajudar a obter alívio. Sempre que possível, busque tratamento para as duas doenças. “Se tiver depressão grave somada à insônia, não negligencie a insônia”, aconselha Riemann. “Muitos médicos dirão: ‘Tudo bem, vou lhe receitar um sonífero por uma semana.’ Sem dar atenção especial a ela. É bom ficar de olho em ambas.”

Para os mais velhos, pode ser difícil reconhecer que estão deprimidos. Muita gente iguala a depressão com o sentimento constante de tristeza, mas alguns idosos não têm essa experiência. Eles se sentem mais cansados, irritados ou inquietos do que de costume. Têm problemas para tomar decisões ou se sentem desmotivados de seguir a rotina diária. Também podem ter dificuldade para se concentrar ou pensar com clareza. Felizmente, o tratamento pode aliviar esses sintomas.

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O tratamento de uma doença pode aliviar as duas, mas nem sempre é assim. Por isso, os médicos recomendam tratar tanto a insônia quanto a depressão, caso você perceba que tem as duas. Se não percebe, tratar uma delas já ajuda. Os especialistas recomendam estes tratamentos:

Cuide logo da insônia

O estudo alemão de 2011 sugere que a insônia pode ser um sintoma precoce de depressão e que as pessoas com insônia crônica têm risco dobrado de ficar deprimidas. 

“Há alguns indícios de que identificar e tratar de imediato os sintomas de insônia reduz os sintomas de depressão e também pode impedir que piorem no futuro”, confirma o Dr. Sweetman.

Mude seu estilo de vida

Mudanças modestas podem reduzir o risco de depressão e proteger da insônia. Técnicas como relaxamento físico e mental e interrupção do pensamento podem ajudar.

“Não é preciso correr para consultar um especialista; alguns podem precisar, mas há outras coisas que podemos fazer para nos cuidar”, diz o Dr. Chisholm.

“Praticar exercícios físicos é importantíssimo para o bom sono e protegem contra a depressão, assim como ter bons hábitos alimentares e evitar o álcool. Seja ativo e volte às coisas que lhe interessam e lhe dão prazer.”

Abrir-se com um amigo de confiança sobre sua dificuldade com a insônia ou o humor deprimido pode ajudar. “A seu modo, isso pode ser muito terapêutico”, observa o Dr. Chisholm. “Se ainda assim os problemas persistirem, talvez você queira e precise buscar a ajuda de um profissional de saúde.”

Limite os soníferos

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Os soníferos só devem ser tomados por prazo curto, se forem mesmo necessários, porque é possível desenvolver dependência. Além disso, o remédio não ataca a causa subjacente da insônia. “Os hipnóticos funcionam bem a curto prazo”, diz Riemann, mas nada fazem para resolver os problemas de sono de forma sustentada. “Só ajudam quando você toma.”

Busque terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I)

Aprender técnicas mais eficazes para dormir é bom tanto para insônia quanto para depressão. A Sociedade Europeia de Pesquisa do Sono recomenda a TCC-I para adultos com insônia crônica.

mulher falando com psicóloga
A terapia pode ajudar com as duas doenças. (Imagem: lorenzoantonucci/iStock)

“Os estudos mostram que, além de reduzir a falta de sono, a TCC-I também ajuda os pacientes com depressão”, diz o Dr. Weess, da diretoria da Sociedade Alemã do Sono. “Técnicas específicas de terapia comportamental, como interromper o pensamento, e técnicas de relaxamento físico e mental têm efeito positivo nas duas doenças.”

Os terapeutas que administram TCC-I podem sugerir que você pare de tirar cochilos, crie uma rotina calmante na hora de dormir, evite olhar o relógio quando estiver na cama, use a cama só para o sexo e o sono, saia da cama para ler ou fazer algo relaxante se não adormecer logo e sempre se levante à mesma hora toda manhã.

Depois que Héctor González, de Madri, buscou ajuda para a insônia e a depressão, o terapeuta lhe recomendou que tomasse banho e lesse à noite em vez de assistir à televisão. Caso despertasse no meio da noite e não adormecesse em 15 minutos, foi aconselhado a ir para outro cômodo e ler. Ele também começou a tomar ansiolíticos.

“Assim que conseguiu um sono repousante, o nível de ansiedade começou a baixar e, em poucas semanas, ele superou a crise depressiva”, diz Álava Reyes. “Para ele, ficou claríssimo que o segredo da recuperação foi superar a insônia.”

Pense em terapia e antidepressivos

Em caso de depressão somada à insônia, a psicoterapia e os antidepressivos podem proporcionar melhora para os dois problemas.

“Tomados à noite, os antidepressivos sedativos se mostraram eficazes no tratamento da depressão com insônia”, diz o Dr. Weess.

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Nem todos os antidepressivos têm o mesmo impacto sobre a insônia. O tipo mais comum, os inibidores seletivos de recaptação da serotonina (ISRS), pode provocar problemas de sono em algumas pessoas.

“Alguns induzem insônia em talvez 20% a 30% dos pacientes”, ressalta Riemann. “Não tome esses medicamentos à noite. Tome-os pela manhã, para que não haja muito efeito sobre o sono.”

Thomas Müller-Rörich, da Alemanha, viu a depressão e a insônia se aliviarem depois de fazer psicanálise e tomar antidepressivos e soníferos. Ele teve insônia e depressão novamente no início dos anos 2000, mas se recuperou outra vez com a ajuda de médicos e remédios. Ficou tão contente com essas intervenções que, em 2009, foi um dos fundadores da Liga Alemã da Depressão, para que mais gente saiba que há ajuda disponível.

“Fiquei contente ao ver que depressão e insônia são tratáveis”, diz Müller- -Rörich. “Voltei a ser quem era, pude mostrar meu amor pela família e gostar do trabalho.”

Se estiver com insônia e depressão, lutando com o sono e as emoções, não importa qual problema apareceu primeiro, busque tratamento médico e saiba que o autocuidado também pode ajudar.

O Dr. Chisholm afirma: “A situação pode e vai melhorar.”

* o nome foi modificado

por Lisa Fields

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