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Publicado em: 5 de maio de 2021

Quando a vontade de comer doces vira compulsão? Nutricionista explica

A nutricionista Jaqueline Migon respondeu as principais dúvidas sobre esse assunto

Imagem: Imagem:Deagreez/iStock

Você já se perguntou se algum momento aquela vontade súbita e repentina de atacar a barra de chocolate poderia ser sintoma de uma compulsão por doces? Talvez o limiar entre gostar de comer um doce depois do almoço e de fato ter uma compulsão seja difícil de identificar logo de cara. Mas vale fazer o teste e tentar ficar um dia inteiro sem comer doces: se você sentir dor de cabeça ou irritabilidade, talvez seja um sinal de abstinência de açúcar.

Leia também: Você pode estar consumindo mais açúcar do que vê, diz pesquisa

Segundo a nutricionista Jaqueline Migon, a compulsão pode acontecer com qualquer alimento, e no caso da compulsão por carboidratos, pode haver um desejo particular pelos doces.

“Por isso, desejo ou fissura por doce pode vir ou não de um comportamento compulsivo. E nem sempre esse é percebido pela própria pessoa. Vários fatores podem estar associados, como deficiências nutricionais, dietas restritivas, ansiedade e até mesmo a ociosidade”, explica.

Para destrinchar melhor o que é a compulsão por doces, quais são os sintomas, sinais de alerta e estratégias de controle, conversamos com a nutricionista Jaqueline Migon, que trouxe um guia completo sobre o assunto. Confira!

6 dúvidas respondidas sobre a compulsão por doces

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Imagem: MixitIstock/iStock

1. Como saber se tenho compulsão por doces?

Seleções: Quando gostar muito de doce pode ser considerado uma compulsão? Há sinais que podem indicar essa compulsão?

Jaqueline Migon: Considerando o hábito alimentar de homens e mulheres, podemos ver que há uma preferência maior pelo consumo de carboidratos pelas mulheres quando comparado aos homens, que já manifestam uma preferência por proteínas. 

Gostar muito de doce pode ser considerada uma compulsão quando há necessidade quase que diária de consumir doces, em qualquer horário do dia ou determinados momentos do dia, e quando o indivíduo troca refeições e alimentos saudáveis por doces, havendo a perda de controle. 

A compulsão alimentar não é caracterizada pelo excesso de fome, ou consumo exagerado de determinados alimentos em um evento especial. E sim pela perda de controle diante de alimentos seguindo um padrão recorrente, ou seja, quando ocorre pelo menos duas vezes por semana, este é o primeiro sinal. Além disso, nem sempre este padrão é reconhecido pelo indivíduo, sendo essa outra característica que pode indicar a compulsão. 

2. Quais são os efeitos no cérebro?

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Imagem: Ganna Gavenko/iStock

Seleções: Como funciona essa compulsão por doces a nível cerebral? É possível dizer que o cérebro de uma pessoa com compulsão por doces torna-se “viciado” em açúcar?

Jaqueline Migon: A compulsão é definida pela recorrência da ingestão de certo alimento num curto período de tempo. Ela está relacionada a um distúrbio de ansiedade e/ou afetivo e tem causa multifatorial. Assim, pode envolver fatores genéticos, neuroquímicos, psíquicos e socioculturais.

Como fator sociocultural, a privação de alimentos, como muitas vezes acontece com os doces no caso de dietas muito restritivas que pregam a eliminação do carboidrato, por exemplo, podem causar comportamentos compulsivos. 

Considerando os fatores neuroquímicos e psíquicos, vários estudos mostram que o cérebro responde ao açúcar de maneira similar a algumas drogas por ativar os centros cerebrais de prazer e recompensa. E assim, pode levar a um vício e consequentemente à compulsão. 

O vício é uma dependência física, que faz alguém buscar o consumo excessivo e cada vez maior de uma substância para conseguir prazer e satisfação. E quando se consome doces o cérebro libera opioides, que são substâncias químicas naturais que dão sensação de imenso prazer. E esta dependência física pode levar à compulsão e à síndrome de abstinência. 

3. Quais alimentos podem entrar no rol da compulsão?

Seleções: Esse vício está relacionado somente a alimentos doces, como balas e chocolates, ou a todos os alimentos mais calóricos, com maior índice glicêmico?

Jaqueline Migon: Embora muitos tenham compulsão por doces e pães, existem pacientes que perdem o controle diante de alimentos salgados, nas refeições principais ou fora delas. E, por exemplo, no meio da tarde repetem o arroz, o feijão e a carne que comeram no almoço.

Leia também: Açúcar vicia? Especialistas revelam o que pensam sobre o assunto

Vários fatores podem estar associados, como deficiências nutricionais, dietas restritivas, ansiedade e até mesmo a ociosidade.

O consumo de alimentos ricos em gordura como aqueles que encontramos nos fast foods, podem levar a um desequilíbrio hormonal, principalmente de hormônios envolvidos no controle da fome e metabolismo como a grelina e a leptina.

Com isso, há um comprometimento da sinalização da fome, fazendo permanentemente que o indivíduo se sinta pouco saciado e ainda reduz o seu metabolismo.

Outro ponto importante é que o excesso de gorduras na alimentação, bem como o de carboidratos, vai aumentar o depósito de gordura no organismo e gerar um processo inflamatório no hipotálamo, que é a região do cérebro que desempenha papel fundamental no comportamento alimentar. Assim, esta situação faz com que o controle da fome e da saciedade seja totalmente alterado, impedindo que a pessoa se sinta saciada.

Outros estudos relatam que dietas ricas em gordura aumentam o número de células do sistema imunológico encontradas no cérebro (micróglias), desencadeando compulsão alimentar e, por consequência, ganho de peso. 

Então, o consumo aumentado de carboidratos de alto índice glicêmico, como doces, biscoitos e pães, aliado a uma alimentação rica em gorduras, podem desempenhar as mesmas alterações na compulsão. Ainda que as vias sejam diferentes, o desfecho final é o mesmo.

4. Só cortar o açúcar resolve?

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Imagem: iStock

Seleções: Como medida de controle é recomendado cortar totalmente o açúcar para controlar a compulsão, ou isso só desencadearia uma nova onda compulsiva?

Jaqueline Migon: Eliminar o açúcar da dieta é quase impossível, mas há como reduzir sua ingestão ao evitar alimentos industrializados – em especial com farinha branca. Além disso, é recomendado beber mais água, porque o cérebro confunde desidratação com fome e ingerir mais proteínas, que garantem saciedade por mais tempo e ajudam a resistir à vontade de comer um docinho. Outra estratégia é abrir mão da sobremesa por três semanas para readaptar o paladar e diminuir a compulsão e também resistir ao impulso de “beliscar”.

Quanto ao uso de adoçantes, acredito que ele pode ser um aliado na construção de uma alimentação que vise o emagrecimento, mas não para enganar o cérebro. Substituir o açúcar por adoçante só vai reforçar o doce e vai permitir que as pessoas continuem contornando o problema buscando sempre receitas e sobremesas ditas “light” para suprir esta necessidade.

O caminho é sempre descobrir a causa para tratar o problema, porque ainda que haja a vontade de comer doce ele estará dentro do equilíbrio normal.

5. Quais são as consequências da compulsão por doces?

Seleções: Quais são os perigos que essa compulsão por doces pode desencadear no organismo? Há um grupo mais vulnerável a esses efeitos nocivos?

Jaqueline Migon: Quando ingerimos doces, o açúcar entra no sistema sanguíneo elevando os níveis de glicose e estimulando o pâncreas a produzir e liberar um hormônio chamado insulina, que converte a glicose em energia e em estoques de gordura.

Além de cáries e obesidade, diversas outras condições clínicas e doenças estão ligadas aos doces, como por exemplo:

6. Quais são as opções de tratamento para a compulsão por doces?

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Imagem: Prostock-Studio/iStock

Seleções: Considerando uma pessoa que tenha percebido que possui uma compulsão por doces, o que ela deverá fazer? Quais são as opções de tratamento para essa compulsão por doces?

Jaqueline Migon: Os melhores tratamentos recomendados e que ajudarão a controlar a compulsão por doces são:

  • Não eliminar nenhum alimento do cardápio, procurando manter uma alimentação equilibrada, a não ser que exista uma razão médica; 
  • Considerar que é melhor comer um doce quando se tem vontade do que tentar enganar o organismo com outras opções consideradas mais saudáveis. Existem várias versões mais saudáveis dentro da mesma proposta de receita;
  • Não abrir mão do carboidrato, pois precisamos de comida para sobreviver e do carboidrato para dar energia ao corpo. Assim, o importante é escolher o carboidrato na versão que impacte menos na glicemia;
  • Além de mudanças no tipo de carboidrato ingerido, a mudança referente a outros constituintes da dieta como utilização de alimentos ultraprocessados, ricos em gordura e fast food, também são decisivos para mudar todo o processo de compulsão.

Fonte: Jaqueline Migon possui graduação em Nutrição pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e mestrado em Nutrição pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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