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Publicado em: 10 de fevereiro de 2020

DPOC: doença pulmonar será uma das mais letais até 2030

Essa doença pulmonar de evolução lenta afeta milhões no mundo todo. Caso esteja preocupado, o melhor é conversar agora mesmo com seu médico.

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Em outubro de 1999, McGloin recebeu o diagnóstico de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). A notícia veio depois de anos de problemas de saúde, como colapso recorrente do pulmão direito, insuficiência respiratória e numerosas infecções pulmonares. McGloin, de 69 anos, parou de fumar e hoje toma esteroides e antibióticos diariamente, num regime preventivo para evitar infecções.

“O mais assustador foi o especialista declarar que eu tinha DPOC”, recorda ele com a voz rouca. “Eu nunca tinha ouvido falar, e achei que devia ser a única pessoa do mundo com isso.” Mas McGloin está longe de ser o único.

DPOC, em breve, estará na lista das doenças mais letais

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre as doenças sem notificação obrigatória, a DPOC – nome abrangente para um grupo de doenças pulmonares como bronquite crônica, enfisema e alguns tipos de asma – será uma das três que mais matam no mundo em 2030, ao lado da doença cardiovascular e do câncer. É difícil encontrar números exatos. Um relatório de 2013 da Fundação Europeia do Pulmão (ELF, na sigla em inglês) estima que 40% a 50% dos fumantes vitalícios dos estados- -membros da União Europeia têm a DPOC, e que outros 15% a 20% dos casos se devem a poluentes no local de trabalho e outros na atmosfera. No total, de acordo com o European Lung White Book de 2013 (relatório oficial europeu sobre o pulmão, publicado pela Sociedade Respiratória Europeia), acredita-se que cerca de 40 milhões de pessoas tenham DPOC na UE.

O número anual de mortes por DPOC nos estados-membros fica em torno de 300 mil, e está crescendo. No Brasil, que está entre os países com o maior número de casos, são cerca de 6 milhões de portadores da doença.

O relatório da ELF pedia mais pesquisas, melhor notificação, novas terapias e aumento da consciência do público sobre a doença. O Dr. Jørgen Vestbo, presidente da Sociedade Respiratória Europeia (que fundou a ELF em 2000 na tentativa de unir pacientes e profissionais de saúde), diz de maneira direta: “Basicamente, temos de fazer melhor muitas coisas.”

Causas para a DPOC

Numerosos relatórios informam que fumar é a principal causa da DPOC, e a poluição do ar e riscos ocupacionais como vapores tóxicos vêm logo atrás. Mas, em alguns casos, pode ser que você tenha nascido prematuro. E assim, seu pulmão não tenha se desenvolvido direito. Ou, ainda, se expôs à fumaça passiva no útero. Acredita-se que a genética tenha seu papel, assim como o simples acaso inexplicável. A DPOC tem formas variadas e segue diversos caminhos, todos discretos, inexoráveis e, por fim, fatais, pois muda a estrutura molecular do pulmão.

A Dra. Daiana Stolz, especialista respiratória da Universidade de Basileia, explica que o modo mais simples de descrever a DPOC é como uma inflamação dos brônquios que dificulta a expulsão do ar e destrói o tecido pulmonar – mas isso não significa que seja uma doença simples, de jeito nenhum. A Dra. Stolz é um dos três especialistas em DPOC na revista Lancet que, em maio de 2019, assinaram um editorial reivindicando um esforço concentrado para erradicar a doença.

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Ela afirma que, por ser tão heterogênea, como um atirador de elite que ataca de vários pontos, a doença é difícil de identificar. Principal autora de um estudo de referência publicado na revista The Lancet Respiratory Medicine em julho de 2018, a Dra. Tillie-Louise Hackett, da Universidade da Colúmbia Britânica, em Vancouver, no Canadá, é diretora associada do Centro de Inovação Cardiopulmonar da universidade. Ela observa que os indivíduos diagnosticados no estágio mais leve da doença já perderam 41% das vias respiratórias menores, ou bronquíolos, e mais de um terço dos alvéolos, as menores unidades do pulmão, fundamentais na troca de moléculas de oxigênio e gás carbônico. E, como o pulmão tem vias respiratórias para dar e vender, quando uma é estreitada ou bloqueada durante muito tempo haverá outra para ocupar seu lugar.

Atenção para a falta de ar

É fácil, tanto para o indivíduo quanto para o profissional de saúde, ignorar ou desdenhar dos primeiros sintomas da DPOC. Eles podem ser inócuos e envolver tosse ou falta de ar ao subir escadas ou um muco espesso que se acumula à noite e se reduz durante o dia. Pode parecer um resfriado ou gripe e pode surgir, sumir e voltar.

A falta de ar, principalmente, é de interpretação difícil para médicos e pacientes, diz a Dra. Stolz. Como a DPOC tem sido historicamente diagnosticada depois dos 40 anos e com o envelhecimento dos indivíduos, é natural achar que todos vamos ficar ofegantes por causa da idade, e assim o diagnóstico de DPOC acaba esquecido. Mas hoje a comunidade médica sabe que, embora a doença se revele em pessoas com mais de 40 ou 50 anos, isso acontece depois de anos de destruição silenciosa. E, quando fala de destruição, a Dra. Stolz não se refere a um pedacinho do pulmão, nem mesmo a meio pulmão.

“Quando percebemos a doença, um pulmão inteiro pode ter se perdido”, conta ela, “o que representa metade da capacidade respiratória. Embora saibamos que é possível viver com um pulmão só, toda perda depois disso é ruim, porque há pouco que possamos fazer. Não é possível ressuscitar tecido morto.”

Tratamentos para DPOC

O padrão do tratamento da DPOC envolve o uso de broncodilatadores para manter as vias respiratórias abertas, antibióticos para prevenir infecções e corticosteroides ou esteroides por via oral nos casos mais graves, embora seu emprego a longo prazo possa causar efeitos colaterais graves, como pneumonia, osteoporose e catarata, entre outros. Além disso, os pacientes com DPOC aprendem a fortalecer o diafragma e a parte superior do corpo a fim de respirar melhor quando o pulmão trava, problema provocado por infecções bacterianas ou virais ou mesmo pelo velho estresse.

Embora haja pesquisas em andamento sobre novos tratamentos para a DPOC – vários com células-tronco, por exemplo –, nada é iminente nem há cura à vista.

Quanto mais cedo começam os tratamentos, menos avanços da doença 

Na verdade, a revolução é o conhecimento de que a DPOC começa a causar danos mais cedo do que se pensava e que, se os pacientes forem diagnosticados e tratados mais precocemente, por volta dos 40 ou 50 anos, terão menos efeitos colaterais com o uso de esteroides, e o avanço da doença será retardado.

O Dr. Vestbo insiste que todo mundo, em qualquer idade, que apresente um sintoma respiratório novo ou alterado – tosse, por exemplo, ou falta de ar em circunstâncias que antes não eram problemáticas – e que dure mais de quatro semanas, deve consultar um médico.

“Foi assim que conseguimos reduzir a incidência de tuberculose – e o mesmo é necessário para o diagnóstico precoce e oportuno da DPOC. Além de ser a melhor maneira de desacelerar o avanço da doença e permitir aos pacientes uma vida mais longa e com mais qualidade.”

O Dr. Vestbo diz que os clínicos gerais deveriam fazer rotineiramente um teste simples de espirometria, ou função pulmonar, em todos os pacientes em risco. Sentado, o paciente usa um clipe que fecha as narinas, inspira profundamente e expira com força pela boca num tubo ligado a uma máquina que mede o fluxo de ar. A máquina avalia quanto ar o paciente é capaz de expirar num segundo. E também quanto tempo leva para pôr para fora o restante do ar.

Atividade física é essencial

“Não leva mais do que cinco minutos e custa muito pouco, mas, para alguns médicos e enfermeiros, é um desafio”, diz o Dr. Vestbo. “Temos de dar ouvidos aos pacientes quando se queixam de falta de ar. Precisamos ouvir suas histórias e depois levar os exames à etapa seguinte.”

Depois de diagnosticar a DPOC, o Dr. Vestbo diz que a melhor receita é assegurar que os pacientes, além das aulas de reabilitação pulmonar, permaneçam fisicamente ativos, apesar do medo de perder o fôlego. “Parece anti-intuitivo, mas o truque é ficar sem fôlego, porque, embora não possamos fazer o pulmão melhorar, com exercícios podemos melhorar os músculos e, assim, dar aos pacientes mais controle da expiração, principal problema no caso da DPOC.”

Um caso real

Tilly Tartaglia, de 74 anos, que foi presidente executiva de um matadouro de aves até se aposentar há 12 anos, entende como é grave ficar sem fôlego todo dia. Moradora de Genk, na Bélgica, viajante ferrenha e ex-fumante inveterada, ela foi internada em março de 2010 porque estava com pneumonia.

No hospital, soube que tinha DPOC e câncer de pulmão. Com o câncer devidamente tratado, mas com apenas 39% da capacidade pulmonar, hoje ela segue um regime de corticosteroides receitados para a doença obstrutiva. Também se força a se mexer o máximo possível todo dia. E, pelo menos duas vezes por semana, vai às sessões de terapia pulmonar, nas quais o especialista adapta o programa à sua necessidade, seja com exercícios para fortalecer o diafragma, seja com caminhadas ou esteira.

“A alternativa”, brinca Tartaglia, que adora viajar e não deixou de fazê-lo, “é não conseguir respirar. E isso não é uma opção.”

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“A maior parte dos casos de DPOC é leve. Para a maioria, a única intervenção necessária é parar de fumar e, talvez, um broncodilatador de ação rápida. A vacina anual contra a gripe é importantíssima, e a vacina contra pneumonia (os dois tipos disponíveis) é recomendada”, explica o Dr. Paul Scanlon, pneumologista da Clínica Mayo. “A doença não tem cura, mas pode ser desacelerada. O tratamento é o bom senso. Não fique com os fumantes na hora do café no trabalho e não viaje para lugares como Pequim, onde a poluição pode ser altíssima.”

Hoje, na Irlanda, Michael McGloin carrega consigo o tanque de oxigênio em vez do acordeão. Ele quer que as pessoas saibam que há vida depois do diagnóstico de DPOC. “Claro que, se eu tivesse recebido o diagnóstico mais cedo, meu pulmão funcionaria melhor agora, e eu não seria humano se às vezes não me perguntasse como teria sido. Mas, na maior parte dos dias, tento me concentrar no que tenho, em ajudar os outros que receberam o diagnóstico e em me manter atualizado sobre as pesquisas.” “O importante”, diz ele, “é que estamos vivos.”

Por Lisa Fitterman

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